Inception (ou “a origem”, blergh) sem spoilers

É como coçar o próprio rosto. Algo tão trivial que você faz sem perceber. E Nolan fez um filme cheio daquilo de sempre sem te chamar atenção para isso. Está tudo lá:

  • a gangue especialista;
  • o golpe quase impossível;
  • o novato que serve para tudo nos seja explicado;
  • os imprevistos;
  • os segredos que quase põe tudo a perder;
  • o egoísmo em detrimento da fidelidade;
  • os parceiros que não perdem a chance de aporrinhar um ao outro;
  • a história de amor mal resolvida;
  • a busca ao mentor por ajuda;
  • o ladrão com sentimentos nobres;
  • as pausas explicativas;

E eu poderia continuar a lista indefinidamente, quase. Até a mais do que batida cena em o braço direito do protagonista diz um enfático “é impossível de se feito” para ser interrompido por um “não, é possível. Eu já fiz” está lá. Sem falar das incongruências. Dos fatos que dentro da própria lógica do filme não fazem sentido. Daqueles momentos em que o próprio filme se desmente.

É como coçar o próprio rosto: banal e conhecido. Mas quantas vezes você coça o rosto de outra pessoa? E é aí que as coisas ficam diferentes.

Extremamente cuidadoso, bem feito, bem acabado, o filme pisa na idéia de “deixar o cérebro do lado de fora da sala” e pegá-lo após o filme. A justificativa idiota de que se você parar para pensar num filme ele perde a graça é posta a prova. E perde. Os buracos típicos de filme de ação, estão lá, sim, mas a cuidadosa coreografia do filme não nos deixa perceber suas arestas. “Coreografia” é bem a palavra. Cada cena parece ter sua duração certa, cada diálogo, cada ato: mantendo sempre sua mente ocupada. Não há tempo para arestas: você tem muitas outras coisas em que pensar. Para cada elemento conhecido, consequências inesperadas.

Não me excito com cenas de ação há séculos. Tudo parece sempre o mesmo. Mas aqui essas cenas tem uma geografia bem demarcada. Sabemos um tudo começa e acaba. Entendemos o porquê de personagens aparecem dezenas de metros distantes de onde estavam alguns segundos antes. Espaço, tempo, física e lógica são torcidos com motivo, como o era em Matrix, mas tenho de frisar que aqui com muito mais elegância. O roteiro parte de uma premissa simples e absurda para nos comprar, sem avareza. Mesmo as pausas explicativas surgem espontâneas.

Suspension of disbelief. Os clichês de personagens, por exemplo, não aparecem graças a um elenco absurdamente convincente. Ellen Page não se limita a ser nossos ouvidos atentos às explicações, mas se demonstra curiosa, ativa, participativa, ainda que inexperiente em comparação com seus colegas e tão deslumbrada quanto nós diante das maravilhas com que o filme nos presenteia. Surpreendi-me mais com Joseph Gorden-Lewitt que, protagonizando o necessário “fodão” de todos os times e de quem não sabemos nada nem saberemos, consegue nos cativar, ganhar nossa absoluta confiança e torcida. Sem falar de despestar nossa inveja por sua cena de “dança”! Tom Hardy, Ken Watanabe, Cillian Murphy; Marion Cotillard, deliciosa e fatal. Sobram até pontas para Tom Berenger e Michael Caine. Todos aproveitam seus momentos e, por menos tempo em tela que tenham, parecem realmente felizes por participar. As melhores chances de interpretação sobram, obviamente, para Leonardo Di Caprio, na superação dos limites e traumas de seu personagem. Traumas, é preciso dizer, absolutamente bem encaixados e nesssários ao interesse da narrativa e, mais ainda, ao nosso interesse por ela. Suspension of gravity. São traumas pesados, mas respeitosos, digamos, com o espaço que nossa própria tensão requisita. Suspension of breath. Um ritmo absurdo. O filme de suspense que Shyamalan percebe há anos. Muita pressa, muitas coisas acontecendo simultaneamente, muita urgência vinda daquilo que você sabe que acontecerá. Muita tensão vinda do que você não sabe que acontecerá.

Um filme que, apesar de suas explicações, deixa que tomemos nosso tempo para encaixá-las. Apesar da sobreposição de ações, concomitantes e decorrentes, por mais impossível que o encontro dessas duas palavras pareça, não nos perdemos.

Infelizmente, duvido que o filme perdure. Logo perceberemos suas brechas, mas… Precisamos vê-lo. É preciso ver esse filme.

sobral